Li uma provocação nesse sentido neste fim de semana e fiquei pensando que existe um aspecto pouco discutido quando falamos sobre inteligência artificial e trabalho. Estamos bastante preocupados em descobrir quais tarefas podem ser automatizadas, mas pouco atentos ao papel que essas mesmas tarefas desempenham na formação de quem ainda está aprendendo.
Boa parte do trabalho de início de carreira nunca foi particularmente sofisticada. Revisar documentos, levantar informações, preparar uma primeira análise, testar alternativas, errar uma solução e refazê-la, errar de novo… São justamente essas atividades que a IA consegue assumir com cada vez mais facilidade “sem erros”. O problema é que essas atividades não servem apenas para produzir alguma coisa, servem, também, para formar alguém.
Um profissional experiente reconhece inconsistências, antecipa problemas e toma decisões melhores porque acumulou anos fazendo trabalhos que hoje parecem perfeitamente automatizáveis. Existe conhecimento que aprendemos em livros e cursos, mas existe outro que só aparece depois de errar, refazer, observar alguém mais experiente e entender por que determinada decisão funcionou e outra não.
Eliminar essas tarefas pode gerar um ganho de produtividade bastante concreto no presente e, ao mesmo tempo, criar um problema, hoje, invisível no futuro. Se o profissional júnior deixa de percorrer parte desse caminho, precisamos descobrir de que outra maneira ele desenvolverá o repertório necessário quando se tornar sênior.
Isso não significa preservar tarefas repetitivas (ou automatizáveis) apenas para manter pessoas ocupadas. Isso é reconhecer que a adoção da IA exige, também, redesenhar os mecanismos de aprendizagem dentro das organizações. Automatizar o trabalho sem repensar como as pessoas aprendem pode produzir empresas extremamente eficientes hoje e carentes de profissionais experientes amanhã.
A inteligência artificial está nos obrigando a rever não só quem executa cada tarefa, mas como se constrói experiência no início da vida profissional.
Absolutamente ninguém começa sênior.
InfoMoney (30/08/2026): “Se a IA fizer o trabalho dos juniores, de onde virão profissionais seniores de 2040?” A reportagem discute o risco de automatizar justamente as tarefas que funcionam como etapa de formação dos profissionais mais jovens.
Estudo acadêmico (Yu & Moon, 2026): “Who Will Become the Next Senior? How Generative AI Erodes the Development Pathway in Software Engineering”. O estudo identifica que a IA pode retirar dos juniores o processo de tentativa, erro e resolução de problemas por meio do qual parte da experiência profissional é construída.
https://arxiv.org/abs/2607.17067
Anthropic Economic Index (2026): levantamento sobre como a IA está sendo incorporada às atividades profissionais. Em março, a Anthropic apontou que cerca de 49% das ocupações já apresentavam uso do Claude em pelo menos um quarto de suas tarefas.
https://www.anthropic.com/research/economic-index-march-2026-report
World Economic Forum (2026): relatório dedicado especificamente ao impacto da inteligência artificial sobre o trabalho de início de carreira e às mudanças esperadas nos cargos juniores.
